Álvaro José Romanha

Podemos dizer que os pesquisadores de hoje contam com muitas ferramentas tecnológicas que facilitam não apenas a pesquisa em si, mas também o funcionamento dos laboratórios e a troca de informações. Mas até pouco tempo atrás a realidade era outra. Segundo Samuel Goldenberg, na década de 1980, o cotidiano nos centros de pesquisa era desafiador. O parco financiamento por vezes obrigava ao reaproveitamento de tubos e ponteiras, sem contar os obstáculos burocráticos para importar insumos de laboratório. Além disso, “Os periódicos demoravam entre quatro e oito meses desde a sua publicação no exterior até a chegada das revistas”; e em viagens ao estrangeiro os cientistas acumulavam uma enorme quantidade de fotocópias de artigos para trazer ao Brasil.[1] Mesmo em meio a tantos percalços, surgiu uma geração disposta a apostar na produção do conhecimento científico. Álvaro José Romanha pode ser contado como um dos seus mais destacados membros.

Nascido no Espírito Santo, em 1951, ele cursou grande parte do ensino básico e médio em Minas Gerais, nas cidades de Viçosa e Belo Horizonte. Logo ingressou no curso de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e ainda na graduação foi contratado para trabalhar no Centro de Pesquisas René Rachou. Nesse período ele consolidou duas paixões, a do futebol, como torcedor do Cruzeiro, e a da ciência. No universo científico muitos dos seus trabalhos foram desenvolvidos em parceria com a UFMG, onde ele atuou como professor no curso de Farmácia e no Departamento de Parasitologia, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB). A sua carreira docente foi muito profícua, abrangendo um tempo na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC – MG) e na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).[2]

A sua dedicação ao ensino angariou-lhe uma grande quantidade de orientandos, de todas as partes do Brasil, passando da iniciação científica ao doutorado. Entre os estudantes ele era conhecido pela sua clareza, disciplina e pelo cuidado no treinamento das práticas de laboratório, de modo a garantir a segurança do aluno. “O prof. Álvaro era extremamente metódico e rigoroso no que dizia respeito a método científico, desde a geração de hipóteses e planejamento experimental e até a análise de resultados e suas interpretações”.[3]

Álvaro Romanha especializou-se no campo da Parasitologia, tendo desenvolvido importantes pesquisas, como o teste de fármacos para a doença de Chagas, estudos moleculares sobre o Trypanosoma cruzi, além de trabalhos sobre a “diferenciação de espécies de Leishmania spp, uso de microssatélites na análise populacional de Schistosoma mansoni e marcadores para leucemia”.[4] Na década de 1980 realizou estudos pós-doutorais na Inglaterra, no Wellcome Research Laboratories, investigando a bioquímica e a quimioterapia de parasitos. Nos EUA atuou como professor visitante no Departamento de Biologia da Universidade de Vanderbilt.[5] Tendo em vista essa experiência, de volta ao Brasil, o cientista organizou a criação, em 1991, no Instituto René Rachou, do Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular de Parasitas. Utilizando a técnica de marcadores celulares, o núcleo deu início a um programa de estudos sobre a “heterogeneidade populacional do T. cruzi”,[6] tendo ampliado, ao longo dos anos, seu escopo de interesses, como a variabilidade genética dos parasitas e seus determinantes biológicos. Na Instituição firmou parcerias científicas com colegas brasileiros e estrangeiros, destacadamente com o pesquisador Zigman Brener, renomado especialista em Doença de Chagas, por quem tinha grande admiração.

Romanha também enveredou pela carreira administrativa. Foi vice-diretor do Instituto René Rachou (2002-2005), e entre os anos de 2005 e 2009 exerceu o cargo de diretor do Instituto. Compôs, também, conselhos consultivos de organizações de pesquisa, como na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e na Fundação Hemominas. Foi Presidente da Sociedade Brasileira de Protozoologia (SBPz), tendo sido agraciado, em 2017, com o prêmio Samuel Pessoa, concedido a investigadores destacados da protozoologia. No ano seguinte à sua aposentadoria no Instituto René Rachou, em 2010, ele foi convidado para compor, como pesquisador visitante, os quadros do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia, da UFSC, onde trabalhou com a quimioterapia experimental e estudos sobre genoma.[7]

Com todas essas qualificações, Álvaro Romanha também era conhecido por ser uma pessoa acessível e solícita, que acreditava na transmissão do conhecimento, independentemente do nível do estudante. Tanto assim que, quando os filhos eram crianças, por vezes comparecia à escola aonde estudavam para ministrar palestras sobre doenças tropicais.[8] Essa postura aberta fez com que ocupasse o cargo de coordenador da Associação dos Funcionários da Fiocruz (Asfoc) – Minas Gerais, entre os anos de 1989 e 1991, atuando em prol dos direitos dos funcionários. Com forte vocação docente, Romanha foi alçado à condição de Professor Titular do Instituto René Rachou. Reconhecido pelos colegas de trabalho, tanto como amigo, quanto como pesquisador destacado, inspirou um livro sobre a sua vida, publicado para homenageá-lo, contando com relatos de familiares, dos pares e ex-orientandos, hoje profissionais.[9] Nesses depoimentos, os autores destacam a atitude positiva e integradora de Romanha, demonstrando que a comunidade científica, como qualquer outra, também se constrói com base na afetividade, na troca das experiências humanas e de memórias compartilhadas. Falecido em 2020, o eco da presença Álvaro Romanha ainda se faz sentir na Fiocruz Minas, não apenas nas pesquisas que desenvolveu, e nos muitos estudantes que formou, como também no ambiente amigável que ajudou a construir.

 

Texto de: Natascha Stefania Carvalho De Ostos – Doutora em História

 

 

[1] A pesquisa científica no Brasil nos anos 80. In: STEINDEL, Mário; EGGERT-STEINDEL, Gisela (orgs.). Um artífice de ciência: trajetória pessoal e científica de Álvaro José Romanha. Florianópolis: Insular, 2017, p. 15.

[2] STEINDEL, Mário. A formação e o exercício da profissão “pesquisador-professor”. In: Idem, p. 39-40.

[3] SANTOS, Wagner Gouvêa. O primeiro mestrando. In: I56. Idem, p.

[4] MURTA, Silvane Maria Fonseca. Lembranças do mestre Álvaro Romanha. In: Idem, p. 101.

[5] STEINDEL, Mário. A formação e o exercício da profissão “pesquisador-professor”. In: Idem, p. 41.

[6] Laboratório de Parasitologia Celular e Molecular. Centro de Pesquisas René Rachou. A fundação Oswaldo Cruz em Minas Gerais. Belo Horizonte: CPqRR, 2000, p. 26.

[7] GRISARD, Edmundo Carlos; STEINDEL, Mário. Dos tempos na Ilha de Santa Catarina, Florianópolis. In: STEINDEL, Mário; EGGERT-STEINDEL, Gisela (orgs.). Ibidem, p. 73.

[8] ROMANHA, Mateus Frechiani. Sobre meu pai. Idem, p. 119.

[9] STEINDEL, Mário; EGGERT-STEINDEL, Gisela (orgs.). Um artífice de ciência: trajetória pessoal e científica de Álvaro José Romanha. Florianópolis: Insular, 2017.