José Pellegrino

José Pellegrino. Imagem do acervo da Fiocruz Minas

“Poucos sobrevivem à morte”, escreveu José Pellegrino.[1] É possível afirmar que o médico e pesquisador mineiro faz parte desse grupo de pessoas que “sobrevive” à morte, pois, para além da memória daqueles que o conheciam, seu trabalho científico perdura como importante contribuição no campo da medicina tropical, nacional e internacionalmente.

José Pellegrino nasceu no ano de 1922 em Passagem de Mariana, Minas Gerais. Filho da italiana Assunta Magaldi e do brasileiro Braz Pellegrino. Seu irmão mais novo, Hélio Pellegrino, famoso psicanalista e literato, fechava o elo de uma família composta por figuras de destaque em suas áreas de atuação. Braz Pellegrino teve, certamente, muita influência na vida dos filhos, pois, sendo médico, inspirou José e Hélio Pellegrino a seguirem a mesma carreira. A trajetória profissional do patriarca merece, por si só, um perfil à parte, e para compreender a formação de José Pellegrino é importante traçar um panorama do ambiente científico e social no qual ele esteve inserido desde jovem. Braz Pellegrino formou-se em medicina na Itália, tendo iniciado sua carreira no Brasil em 1923, logo ingressando nos quadros da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, na área de Clínica Médica, chegando a ministrar cursos na cadeira de Doenças Infecciosas e Tropicais,[2] área posteriormente escolhida pelo seu filho. Ele foi também um dos fundadores, no ano de 1939, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que abrigava cursos como Filosofia, Letras, História Natural, Matemática, Química e Física. Dirigiu a faculdade entre 1946 e 1948.[3] Participou, ainda, da fundação da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, em 1950, assumindo a cadeira de Clínica Médica.[4] Como profissional e administrador respeitado, e bem relacionado, o médico abriu muitas portas para o filho, nas palavras de Amilcar Martins, “o Braz Pellegrino, pai dele, era diretor da Faculdade de Filosofia e dava todas as facilidades para o José”.[5]

Munido desse importante capital cultural,[6] José Pellegrino soube aproveitar as oportunidades. Graduado, em 1946, pela Faculdade de Medicina da UFMG, no mesmo ano ele foi “indicado como assistente da cadeira de Biologia Geral do curso de História Natural”,[7] na Faculdade de Filosofia. Ali ele recebeu muitos ensinamentos sobre cultura científica do professor Giorgio Schreiber, italiano, único pesquisador do curso com o título de doutor.[8] J.Pellegrino foi o primeiro assistente de Schreiber (que exigiu um colaborador em tempo integral).[9] Foi médico do serviço sanitário de Minas Gerais (1947 a 1961), tendo atuado, segundo Simone Kropf, no Centro de Estudos e Profilaxia da Moléstia de Chagas (CEPMC),[10] criado na cidade mineira de Bambuí, em 1943, como posto do Instituto Oswaldo Cruz. Ao lado pai, consta como um dos fundadores da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, tendo sido parte do primeiro grupo de docentes da instituição (1951), na cadeira de Parasitologia.[11] José Pellegrino realizou pesquisas na Faculdade de Medicina, mas foi no Instituto de Ciências Biológicas (ICB), da Universidade Federal de Minas Gerais, que se firmou como professor na pós-graduação. No ano de 1953 aprofundou suas pesquisas no Instituto de Parasitologia da Universidade de Roma, com Bolsa da Fundação Amerigo Rotellini e do CNPq, sob supervisão do professor Ettore Biocca.[12] Em 1955 cursou outra especialização no Departamento de Parasitologia e Microbiologia do Departamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, São Paulo.[13] Mas suas pesquisas eram desenvolvidas principalmente no Centro de Pesquisas de Belo Horizonte, atual Instituto René Rachou (IRR), antes vinculado ao Instituto Nacional de Endemias Rurais (INERu), e pertencente à Fiocruz após 1970.

Conhecido por ser um estudioso incansável, mas tímido, que não gostava dos holofotes, o médico mineiro construiu uma carreira incomum para um cientista, não se atendo a uma única área. Segundo Amilcar Viana Martins, ele era respeitado pela “obsessão ou mesmo compulsão pela pesquisa científica e cujos trabalhos fundamentais sobre a Doença de Chagas e esquistossomose todos conhecem”.[14] Trabalhou com vários cientistas consagrados, como Emmanuel Dias, com quem atestou a eficácia do inseticida BHC no controle dos barbeiros, e também publicou estudos sobre a cardiopatia crônica em Doença de Chagas.[15] J. Pellegrino coordenou inquérito sobre incidência da doença em doadores de sangue, alertando “para necessidade de se tornar obrigatória a inclusão da reação […] entre as provas de rotina exigidas na seleção de doadores de sangue”.[16] Nesse campo, “realizou uma série de trabalhos sobre sorologia, da doença de Chagas, fauna triatomínica […] aspectos experimentais da cardiopatia chagásica, padronização de antígenos para diagnóstico, levantamentos epidemiológicos”.[17] Suas conquistas científicas na área da Doença de Chagas, com impacto concreto para o combate à doença, já seriam suficientes para consagrá-lo como grande pesquisador. Mas ele foi além, e desenvolveu vários estudos fundamentais sobre a esquistossomose.

Em meados da década de 1950, J. Pellegrino se interessou pela área da esquistossomose, tendo passado um período na Suíça, a convite de uma indústria farmacêutica, para desenvolver pesquisas sobre o tema.[18] Fundou e foi chefe (1963-1967), do Laboratório de Esquistossomose do hoje IRR. Atuou em diversas frentes para a maior compreensão dessa patologia, “desde a cercária até a clínica, passando por esquistossômulo, diagnóstico parasitológico, diagnóstico imunológico, inquéritos sorológicos, quimioterapia experimental, quimioprofilaxia, vetores, reservatórios silvestres, controle da doença e esquistossomose experimental”.[19] Trabalhou incansavelmente na busca por novos medicamentos para o combate à doença, na pesquisa por substâncias que controlassem os moluscos hospedeiros do parasita e em drogas com ação profiláticas. Os ensaios das drogas para tratamento da patologia feitos por José Pellegrino, em conjunto com outros colegas, foram fundamentais para a criação dos medicamentos atuais. Além disso, segundo Naftale Katz, o cientista era muito cuidadoso com os dados obtidos em suas investigações, fazendo questão de publicar todos os resultados dos testes de medicamentos, bem-sucedidos ou não, independentemente da pressão de interesses comerciais.[20] Na UFMG, J. Pellegrino foi coordenador do Grupo Interdepartamental de Esquistossomose (GIDE), criado em 1969, com o objetivo de “melhorar as condições existentes para um trabalho científico e treinamento cada vez melhores no campo da esquistossomose”.[21]

O cientista também se destacou por ter formado uma geração de pesquisadores renomados. Um deles foi Zigman Brener, referência mundial em Doença de Chagas, que começou suas pesquisas ainda na graduação em medicina da UFMG, sob a supervisão do professor Pellegrino, a quem caracterizou como alguém “extremamente inteligente, produtivo, entusiasmado”.[22] Naftale Katz, internacionalmente reconhecido como especialista em esquistossomose, é outro cientista que foi orientado por J. Pellegrino, a quem chama de seu “pai científico”. Katz o qualifica como homem brilhante, de vasta cultura científica, generoso com os orientandos, figura central na sua formação, e responsável por tê-lo levado a trabalhar no atual Instituto René Rachou.[23] Boletim do ICB, do ano de 1970, noticiava que, “O Prof. José Pellegrino está ministrando a disciplina (optativa) de Terapêutica Experimental no Curso de Pós-Graduação de Parasitologia”. Dentre os frequentadores do curso constava Paulo Marcos Zech Coelho, que viria a ser professor da UFMG e posteriormente pesquisador no IRR.[24] Zigman Brener destacou o papel fundamental de Pellegrino como “catalisador de dezenas de investigações realizadas pelos grupos de bioquímicos, parasitologistas, imunologistas e patologistas, que transformaram Belo Horizonte em um dos mais ativos centros em investigação da esquistossomose”.[25]

Além do seu papel como formador de novos cientistas, J. Pellegrino recebeu prêmios ao longo de sua carreira. Como o Prêmio Nami Jafet, por suas pesquisas em esquistossomose, outorgado em 1962.[26] Juntamente com N. Katz recebeu o Prêmio Lafi, entregue em 1972 (referente a 1970), na categoria ciências básicas aplicadas à medicina, pelo trabalho, “Quimioterapia experimental da Esquistossomose Mansoni”.[27] Os pesquisadores também foram laureados em concurso internacional sobre filmes científicos, pela produção de obra sobre a mesma doença.[28] Além disso, foi consultor da Organização Mundial da Saúde, participando de organizações científicas nacionais e internacionais: “Sociedade de Biologia de Minas Gerais, a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, a Sociedade Argentina de Parasitologia, a American Society of Parasitologists, a American Society for the Advancement of Science, a New York Academy of Sciences e a Royal Society of Tropical Medicine, de Londres”.[29]

Homem sensível, José Pellegrino escreveu um livro de aforismos, chamado Encontro, com prefácio do irmão Hélio, “O autor deste livro é um atleta do pensamento científico. […] De estirpe apolínea, geômetra por temperamento e vocação, nos mostra agora, por uma fresta cortante, as fagulhas do fogo que o alimenta”.[30] Na obra, escreveu algumas reflexões sobre o fazer científico: “A principal função da ciência é a de tornar as coisas cada vez mais simples. […] A Ciência pura nada mais é do que aquela que ainda não foi aplicada”.[31] Reconhecido como autoridade científica internacional em sua área de atuação, autor de cerca de 300 publicações,[32] José Pellegrino faleceu em fevereiro de 1977. Como homenagem, o Simpósio Internacional de Esquistossomose instituiu o Prêmio José Pellegrino, para distinguir a melhor tese na área.

Em artigo de jornal, no ano de 1977, Hélio Pellegrino publicou comovente homenagem ao irmão, lamentando que, apesar dos enormes feitos e contribuições do cientista, “sua morte está rodeada de silêncio. Falou-se pouco de José Pellegrino, falou-se muito menos do que a dívida que a comunidade mineira – e a brasileira – tem para com o seu trabalho, que serviu a todos, e interessa a todos”.[33] O Instituto René Rachou reconhece essa dívida e honra o legado desse grande cientista, um dos maiores pesquisadores brasileiros de sua geração.

 

Projeto Memória. Trajetória histórica e científica do Instituto René Rachou – Fiocruz Minas.

Coordenadores: Dr.ª Zélia Maria Profeta da Luz; Dr. Roberto Sena Rocha.

Historiadora: Dr.ª Natascha Stefania Carvalho De Ostos.

 

Texto de: Natascha Stefania Carvalho De Ostos

 

[1] PELLEGRINO, José. Encontro. Belo Horizonte: Imprensa da UFMG, 1972, p. 25.

[2] In: Academia Mineira de Medicina. Braz Pellegrino, patrono da cadeira 37. Disponível em: <http://www.acadmedmg.org.br/ocupante/cadeira-37-patrono-braz-pellegrino/>.

[3] PEREIRA, Júlio Emílio Diniz. Relações de poder no interior do campo universitário e as licenciaturas. Cad. Pesqui.,  n. 111,  dez.  2000, p. 190.

[4] Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais: 50 anos de História. Rio de Janeiro: Editora Revinter, 2001, p. 95.

[5] MARTINS, Amilcar Viana. Amilcar Viana Martins (depoimento 1978). Rio de Janeiro, CPDOC, 2010. 40 p. Entrevistador: Simon Schwartzman, p. 14.

[6] Capital cultural se refere a um sistema de ordenação que favorece, no ambiente de ensino, aqueles dotados de referências culturais, habilidades, etc., que são incorporados, desde a infância, em indivíduos de segmentos sociais privilegiados. Ao longo da vida escolar esse capital diferencia, positivamente, os portadores dessas características, justamente por elas integrarem os critérios segundo os quais o sistema educacional avalia os estudantes. BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean Claude. Os herdeiros: os estudantes e a cultura. Florianópolis: UFSC, 2014.

[7] PEREIRA, Júlio Emílio Diniz. Ibidem, p. 190.

[8] UFMG, 80 anos. Giorgio Schreiber. Disponível em: <https://www.ufmg.br/80anos/rua-giorgioschreiber.html>; MARTINS, Amilcar Viana. (depoimento 1978). Ibidem, p. 14.

[9] PAIXÃO, Léa Pinheiro. Cátedra e hegemonia da prática docente na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Revista bras. Est. pedag., vol. 76, n. 182/183, jan./ago. 1995, p. 222.

[10] KROPF, Simone Petraglia. Doença de Chagas, doença do Brasil. Ciência, saúde e nação, 1909-1962. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2009, p. 404.

[11] Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais: 50 anos de História. Rio de Janeiro: Editora Revinter, 2001, p. 95, p. 98.

[12] Ciência e Cultura, vol. 6, n. 1, 1954, p. 45.

[13] AZEVEDO, Nara; KROPF, Simone; HAMILTON, Wanda. A profissionalização da Ciência no Brasil: a trajetória de Zigman Brener. In: KLEIN, Lisabel et al. Inovando a tradição: Zigman Brener e a parasitologia no Brasil. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz; Belo Horizonte: Centro de Pesquisas René Rachou, 2003, p. 13.

[14] MARTINS, Beatriz Borges. Amilcar Vianna Martins: um cientista mineiro, 1907-2007. Belo Horizonte, 2007, p. 97.

[15] SCHALL, Virgínia. Contos de fatos. Histórias de Manguinhos. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2001, p. 212; KROPF, Simone P., AZEVEDO, Nara; FERREIRA, Luiz Otávio. Doença de Chagas: a construção de um fato científico e de um problema de saúde pública no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva, 5(2), 2000, p. 357.

[16] Resumo. PELLEGRINO, J. et al.. Inquérito sobre a Doença de Chagas em candidatos a doadores de sangue. Mem. Inst. Oswaldo Cruz,   vol. 49, p. 557-564,  mar.  1951.

[17] BRENER, Z. (Prof.). J. Pellegrino. In Memoriam. Homenagem. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, vol . 19, n. 4, 1977, p. 214.

[18] BRENER, Zigman. Depoimento. In: KLEIN, Lisabel et al.. Ibidem, p. 116-117.

[19] KOROLKOVAS, Andrejus. Quimioterapia experimental da esquistossomose. Ciências Naturais. Suplemento Cultural. O Estado de São Paulo, n. 69, 12 dez. 1978, p. 10.

[20] KATZ, Naftale. Naftale Katz (depoimento, 2019). [Entrevista concedida a Natascha Stefania         Carvalho De Ostos]. Belo Horizonte, 31 out. 2019, 23 p..

[21] ICB, UFMG. Boletim Especial. Edição comemorativa, 15 anos do ICB, 1969-1984, p. 12.

[22] BRENER, Zigman. Depoimento. In: KLEIN, Lisabel et al.. Ibidem, p. 108.

[23] KATZ, Naftale. Naftale Katz (depoimento, 2019). [Entrevista concedida a Natascha Stefania         Carvalho De Ostos e Roberto Sena Rocha]. Belo Horizonte, 30 out. 2019, 30 p..

[24] UFMG. ICB. Tópicos. In: Boletim Informativo, ano II, n. 9, maio 1970, p. 2.

[25] BRENER, Z. (Prof.). J. Pellegrino. Ibidem.

[26] Prêmio “Nami Jafet” para pesquisadores. Jornal do Comércio. Rio de Janeiro, n. 112, 15 fev. 1963, p. 2.

[27] FALCI, Miguel. Medicina é notícia. Hoje a entrega do Prêmio Lafi. Diário da Noite, São Paulo, 17 abr. 1972, p. 5.

[28] KATZ, Naftale. Naftale Katz (depoimento, 2019). [Entrevista concedida a Natascha Stefania         Carvalho De Ostos e Roberto Sena Rocha]. Belo Horizonte, 30 out. 2019, 30 p.; Amargura mata em Minas o maior pesquisador de Medicina dos Trópicos. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 20 fev. 1977, p. 12.

[29] AZEVEDO, Nara; KROPF, Simone; HAMILTON, Wanda. A profissionalização da Ciência no Brasil. Ibidem, p. 13.

[30] PELLEGRINO, Hélio. Prefácio. In: PELLEGRINO, José. Encontro. Imprensa da UFMG: Belo Horizonte, 1972, p. 19.

[31] PELLEGRINO, José. Encontro. Idem, p. 71.

[32] BRENER, Z. (Prof.). J. Pellegrino. Ibidem.

[33] PELLEGRINO, Hélio. O Irmão Insone. Diário do Paraná. Curitiba, n. 6.528, 3 mar. 1977.