A Bouba em Minas Gerais, uma doença do passado

Nos dias de hoje, em pleno século XXI, se fizermos uma pesquisa nas ruas, indagando aos transeuntes “o que é a bouba?”, a maioria não saberá responder. Porém, até meados do século XX, essa doença era muito comum no Brasil, sendo o nordeste de Minas Gerais uma das áreas endêmicas. A bouba, também conhecida como framboesia, pian ou piã, é causada pela bactéria Treponema pertenue, transmitida pelo contato com a pele de indivíduos infectados, e é altamente contagiosa. Embora não seja de transmissão venérea, ela era muitas vezes confundida com a sífilis, em razão de alguns sintomas semelhantes. Trata-se de uma doença especialmente cruel, pois causa feridas e ulcerações na pele, que em estágio avançado podem comprometer tecidos mais profundos e ossos. Assim, os doentes sofrem com o estigma, em razão do aspecto das feridas.  No Brasil, a situação era preocupante, e as áreas mais atingidas eram o Norte e o Nordeste do país, e algumas regiões de Minas Gerais.

Foi principalmente a partir da década de 1930 que os governantes do país começaram a implantar medidas mais robustas contra as epidemias que acometiam parte significativa dos brasileiros, pessoas pobres, subnutridas que viviam sem saneamento básico, ou qualquer tipo de assistência médica. Para tirar essa população de sua condição miserável defendia-se o fortalecimento do Estado, motor das transformações sociais necessárias para, de acordo com o pensamento da época, fazer do “matuto” doente uma pessoa produtiva, capaz de trabalhar e, assim, colaborar para o desenvolvimento da nação.  O primeiro passo era conhecer a realidade do interior do Brasil, sair das cidades e do litoral, adentrar o país, de modo a tomar ciência dos problemas existentes e organizar as ações necessárias.[1]

Em 1934, o estado de Minas Gerais era governado por Benedito Valadares, interventor nomeado por Getúlio Vargas. O secretário da Agricultura era Israel Pinheiro, que motivado pelo novo impulso organizador daqueles tempos, realizou uma viagem ao norte e nordeste mineiro. Mas a excursão, acompanhada por jornalistas, acabou revelando um quadro impressionante, em que cada estação de trem descortinava um cenário aterrador: “Em Mucuri aguardavam o trem mais de 200 doentes de bouba, moléstia que grassa largamente em toda a região […]. Em Itambacuri prepara-se uma parada de mais de 3.000 boubentos para que o diretor da Saúde Pública a veja. […] Em Urucú o quadro apresentava-se doloroso, impressionando vivamente o secretário e os que o acompanhavam. […] Estive entre os doentes, que tiraram a camisa para mostrar as bolhas que cobriam o corpo; estavam abatidos, tristes, aniquilados, apresentando um aspecto desolador […] ou a Saúde Pública elimina a bouba e suas companheiras trágicas do vale do Mucuri, ou elas despovoarão o vale”.[2]

A procissão de doentes, com suas feridas abertas, uma verdadeira horda de brasileiros abandonados à própria sorte, descortinava para os governantes a magnitude do desafio a ser enfrentado. Ainda em 1934, o Instituto Ezequiel Dias, filial do Instituto Oswaldo Cruz em Minas Gerais, foi chamado pelo Diretor da Saúde Pública e Higiene de Minas, Mário A. da Silva Campos, a colaborar no estudo da bouba no estado. Para a tarefa foi designado o bacteriologista e micologista José Aroeira de Sousa Neves (imagem abaixo), que começou a trabalhar no Instituto Ezequiel Dias antes mesmo de formar-se em medicina pela Faculdade de Medicina de Minas Gerais, tendo galgado vários postos dentro da Instituição, desde meados da década de 1910,[3] e que investigou a doença no norte mineiro.[4] Segundo Octavio de Magalhães, diretor da filial de Manguinhos, Neves descreveu em seu relatório, “a veracidade da existência da doença, encontrando um campo extenso para o estudo desta treponemose, com síndromos clínicos os mais variados e impressionantes”.[5]

Legenda: “Dr. Aroeira Neves […]”. Foto: Hans Peter Lange. In:HEITOR, Carlos. Uma casa de homens que lutam contra morte. Vamos Ler ,Rio de Janeiro, n. 95, 26 maio 1938, p. 36. Biblioteca Nacional, Hemeroteca Digital Brasileira.

 

Apesar dos esforços do Instituto Ezequiel Dias e das autoridades sanitárias de Minas Gerais, a framboesia continuou como problema mal resolvido, pois até o início da década de 1950 ainda não existia uma droga própria para a doença, sendo utilizados medicamentos compostos de bismuto ou arsênio.[6] A principal medida adotada no controle da moléstia consistia então no isolamento dos doentes, para evitar novas contaminações. Posteriormente, o Instituto Oswaldo Cruz começou a fazer experimentos com penicilina, “Nas experiências realizadas no Hospital Evandro Chagas verifica-se que no início do tratamento os testes eram feitos com muitas injeções diárias de penicilina em baixas doses de concentração. Por vezes, eram necessários trinta dias de internação com três ou quatro injeções por dia para que o paciente se recuperasse. O desenvolvimento das pesquisas mostrou, no entanto, que o aumento da concentração da dosagem em uma única injeção diária facilitava a possível transposição daquele tratamento para o nível de uma campanha nacional”.[7]

No ano de 1952 a popular revista O Cruzeiro noticiou um suposto caso de eutanásia praticado no nordeste de Minas Gerais, por filha em pai acometido de bouba, “que semelhava um monstro, roído de bichos e exalando insuportável mau cheiro”.[8] Independentemente da veracidade da história, o fato é que a doença povoava o imaginário da população como algo aterrorizante e de difícil cura. Nas palavras de Juscelino Kubitschek, em 1955, apenas na cidade mineira de Teófilo Otoni teriam sido atendidos milhares de doentes, que percorriam longas distâncias para obter tratamento. E, mesmo sendo médico, ele ressaltou o quão traumática poderia ser a doença, “Quem já teve a oportunidade de ver um doente de bouba, não pode deixar de ficar impressionado. A pessoa fica desfigurada na pele, no nariz e na boca. Nos casos graves, o doente fica deformado pelas mutilações dos ossos”.[9]

Ao assumir a Presidência da República, no ano de 1956, Juscelino Kubitschek remodelou os serviços sanitários do país, criando o Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu), com o objetivo de organizar e executar os serviços de combate a várias doenças, lançando, dentre outras iniciativas, o Programa de Erradicação da Bouba, sob o comando do pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, Felipe Nery Guimarães.[10] Por volta de 1958, o Ministério da Saúde editou uma cartilha (imagem abaixo) descrevendo a patologia e instruindo os guardas sanitários como tratar os doentes. O texto foi escrito em linguagem simples e com alertas em tom popular, “O azar persegue a gente, e por isso eu vivo alerta. Se eu abandono um ausente. É um boubento na certa”.[11]

Capa de Cartilha do Ministério da Saúde. Na imagem é possível ver as áreas de incidência da doença, incluindo Minas Gerais. Ministério da Saúde. Departamento Nacional de Endemias Rurais. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, [1958?]. 2.ed.

 

 

Interessante que o município mineiro de Itambacuri, citado pelo jornal em 1934 como localidade onde grassava a bouba, foi descrito, no ano de 1958 – em relatório para a concessão de verba destinada à construção de hospital na cidade –, como um “celeiro” de doenças, incluindo a bouba. O relatório parlamentar recordava que o local atraiu, “pesquisadores e cientistas de renome, […] Aroeira Neves, Microbiologista do Instituto Ezequiel Dias […]; César Pinto, Biologista do Instituto Oswaldo Cruz; […] Amílcar Viana Martins […] José Pellegrino […]”.[12] Os cientistas se dirigiam a Itambacuri certos de encontrar o material de pesquisa procurado. José Pellegrino, nesta época, trabalhava no Centro de Pesquisas de Belo Horizonte, hoje Instituto René Rachou. Em 1964, o Centro, então subordinado ao DNERu, cuja divisão mineira era comandada por Raimundo Siebra de Brito, diretor do Instituto René Rachou entre 1969-1970, apoiou ações da Campanha contra a Bouba, concentradas nos municípios de, “Galiléia, Mendes Pimentel e Mantenópolis, com os seguintes resultados: doentes tratados – 194, com um consumo de 194 doses de antibiótico (4 cm3). A população da área trabalhada era de …79.504 pessoas e o número de localidades, de 544”.[13]

Nota-se, portanto, que a bouba marcou Minas Gerais, mobilizando cientistas e Instituições de Pesquisa, integrando um cenário amplo e complexo, de pobreza e falta de saneamento básico, favorável à proliferação de outras doenças. Em 1967, a Organização Mundial da Saúde reconheceu que a bouba estava erradicada em Minas Gerais. No Brasil, a doença praticamente desapareceu após a década de 1970. No mundo, nos dias de hoje, a framboesia se restringe a lugares isolados do Sudeste Asiático.[14] Somente com a ampliação massiva dos serviços públicos e a melhoria nas condições de vida da população, a bouba pôde ser o que é hoje: uma doença esquecida.

 

 

Projeto Memória. Trajetória histórica e científica do Instituto René Rachou – Fiocruz Minas.

Coordenadores: Dr.ª Zélia Maria Profeta da Luz; Dr. Roberto Sena Rocha.

Historiadora: Dr.ª Natascha Stefania Carvalho De Ostos.

 

Texto de: Natascha Stefania Carvalho De Ostos – Doutora em História

 

[1] TORRES, Alberto. O Problema Nacional Brasileiro РIntrodṳ̣o a um programa de organiza̤̣o nacional. Ṣo Paulo: Companhia Editora Nacional/MEC, 1978 [1914].

[2] A vinda dos assírios e os infelizes brasileiros. De uma proposição de Swift à desgraça do campônio brasileiro. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 09 de março de 1934, p. 8, apud Estado de Minas, Belo Horizonte, 02 março 1934, p. 1.

[3] NEVES, José Aroeira. Academia Mineira de Medicina. Disponível em: <http://www.acadmedmg.org.br/ocupante/cadeira-46-patrono-jose-aroeira-neves/>.

[4] CHAVES, Bráulio Silva. O Instituto Ezequiel Dias e a construção da ciência em um “Horizonte” da modernidade (1907-1936). Dissertação de Mestrado. Departamento de História. Universidade Federal de Minas Gerais, 2007. Belo Horizonte, p. 99.

[5] MAGALHÃES, Octávio De. Ensaios. Belo Horizonte: Ed. Faculdade de Direito de Minas Gerais, 1957, p. 285.

[6] MUNIZ, Érico Silva Alves.  ‘Basta aplicar uma injeção?’: concepções de saúde, higiene e nutrição no Programa de Erradicação da Bouba no Brasil, 1956-1961. Hist. cienc. saude-Manguinhos,  v. 19, n. 1, mar. 2012, p. 201.

[7] MUNIZ, Érico Silva Alves. Basta aplicar uma injeção? Saúde, doença e desenvolvimento: o programa de erradicação da bouba no Brasil (1956-1961).  Dissertação de mestrado. Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz. Rio de Janeiro, 2009, p. 64-65.

[8] FERNANDES, Luís Brant. Eutanásia em Minas. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 12 dez. 1952, p. 116.

[9] A Voz de Juscelino – O grande foco de Bouba. Transcrito do Diário Carioca, do 4-8-1955. Diário do Paraná, n. 108, 05 ago. 1955, p. 3.

[10] MUNIZ, Érico Silva Alves. Ibidem, 2012, p. 201.

[11] BRASIL, Ministério da Saúde. Cartilha da Bouba. Vamos acabar com a bouba no Brasil. Departamento Nacional de Endemias Rurais. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, [1958?], 2.ed, s.p.. Disponível em: <http://brasil.bvs.br/>.

[12] MURTA, Celso. Câmara dos Deputados. Projeto n. 4.154/58. Justificativa. Autoriza o Poder Executivo a abrir, pelo Ministério da Saúde, o crédito especial de Cr$ 5.000.000,00, destinado a atender as despesas com o prosseguimento e conclusão das obras do Hospital São Vicente de Paulo, de Itambacuri, Minas Gerais, p. 1-2.

[13] Circunscrição Minas Gerais.  Folhas de Atualidades em Saúde Pública. Rio de Janeiro, n. 5, maio 1965, p. 14.

[14] MUNIZ, Érico Silva Alves. Ibidem, 2012, p. 2010-211.