Emma Elfriede Kaucher Darmstadter

Formatura

Foto de formatura, 1956. Acervo particular de Andreia Kaucher Darmstadter. 

 

Pesquisa publicada em 2021 apontou que as mulheres s√£o minoria no mercado de trabalho STEM, sigla em ingl√™s para ‚ÄúCi√™ncia, Tecnologia, Engenharia e Matem√°tica‚ÄĚ, configurando 26% dos profissionais dessas √°reas no Brasil.[1] Se nos dias de hoje existe tal sub-representa√ß√£o feminina, em meados da d√©cada de 1950 era raro encontrar mulheres com curso superior e trabalhando com ci√™ncia e tecnologia. Como Emma Elfriede Kaucher Darmstadter, nascida em 1933 na cidade do Rio de Janeiro.

Emma era filha √ļnica de pais europeus. A fam√≠lia mudou-se do Rio de Janeiro para Minas Gerais quando Emma era crian√ßa, em raz√£o das atividades comerciais do pai. Segundo depoimento de Andreia K.¬†Darmstadter, filha de Emma: ‚ÄúMinha av√≥ dizia que minha m√£e sempre se interessou por ‚Äúvidrinhos‚ÄĚ e ‚Äúmisturinhas‚ÄĚ […]. teve uma atra√ß√£o muito forte pela ci√™ncia. Era estudiosa e investigativa. Ela ficava dividida entre fazer medicina ou farm√°cia. Acabou optando pela forma√ß√£o de Farm√°cia‚ÄĚ.[2] Durante o curso, Emma recusou-se a realizar as costumeiras viagens √† Europa na companhia dos pais, preocupada com o poss√≠vel impacto negativo nos seus estudos. Graduou-se pela Faculdade de Odontologia e Farm√°cia da Universidade de Minas Gerais, em dezembro de 1956.

No final do ano de 1957 ingressou no servi√ßo p√ļblico, no Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu), como assessora administrativa no programa de Combate √† Esquistossomose na Bahia, mas n√£o chegou a trabalhar no estado, sendo disponibilizada para exercer suas fun√ß√Ķes no Instituto Nacional de Endemias Rurais (INERu), √≥rg√£o de pesquisa do DNERu, em Belo Horizonte. Na capital mineira, Emma atuou no Centro de Pesquisas de Belo Horizonte (CPBH), posteriormente renomeado como Centro de Pesquisas Ren√© Rachou (CPqRR).[3] Era comum na organiza√ß√£o administrativa da √©poca que funcion√°rios fossem admitidos em uma determinada fun√ß√£o, mas trabalhassem em √°rea diferente daquela oficialmente registrada, atendendo √†s necessidades do √≥rg√£o p√ļblico. Foi esse o caso de Emma Kaucher, classificada como funcion√°ria administrativa, mas que na realidade trabalhava como farmac√™utica, em atividades de pesquisa. Somente em 1961 ela passou para o cargo de Farmac√™utico do Minist√©rio da Sa√ļde, e em fins de 1964 foi registrada na fun√ß√£o de Qu√≠mico.[4]

Emma Kaucher foi membro da Associa√ß√£o Mineira de Farmac√™uticos.[5] No CPqRR, trabalhou como assistente nos Laborat√≥rios de Qu√≠mica e Imunologia. Suas atividades foram descritas em relat√≥rio elaborado por Wladimir Lobato Paraense, ent√£o diretor do INERu: ‚ÄúPlaneja, orienta, executa e rev√™ trabalhos sobre assuntos de qu√≠mica aplicada √† medicina, especialmente dosagens de subst√Ęncias ou l√≠quidos org√Ęnicos e ou produtos utilizados na terap√™utica de doen√ßas end√™micas e no combate aos transmissores dessas doen√ßas, an√°lises eletrofor√©ticas, an√°lises de √°guas, preparo de drogas e de solu√ß√£o, e outros trabalhos de pesquisa qu√≠mica e biol√≥gica em protozoozes e helmintoses‚ÄĚ.[6] Juntamente com Ernest Paulini e Jos√© Pedro Pereira, tamb√©m pesquisadores do CPqRR, publicou trabalho sobre a estabilidade do sal cloroquinado em condi√ß√Ķes de armazenamento.[7]

 

Emma

Emma Kaucher, e colega de trabalho, no CPBH, s./d.. Acervo particular de Andreia Kaucher Darmstadter.

 

 

Segundo relato de Andreia Darmstadter, Emma Kaucher tinha muito gosto pelo seu trabalho de pesquisa, e fez diversas amizades no Centro, como Alda Falc√£o e Rosa Br√≠gido. J√° casada com o m√©dico Friedrich Johannes Darmstadter, e com a chegada dos filhos, os ‚Äúenxovais de beb√™s foram bordados pelas colegas de servi√ßo‚ÄĚ. De vez em quando as crian√ßas eram levadas para visitar o instituto: ‚Äúfomos inclusive ao laborat√≥rio em que ela dividia os trabalhos com o ‚ÄúTio‚ÄĚ Jos√© Pedro [Jos√© Pedro Pereira]. Eles faziam pesquisa de doen√ßa de Chagas e leishmaniose. Eu sempre me encantava com as cobaias‚ÄĚ.[8]

A rede de amizades de Emma englobava v√°rias mulheres com forma√ß√£o na √°rea cient√≠fica. Al√©m das colegas de gradua√ß√£o, ela era muito pr√≥xima, desde a mais tenra inf√Ęncia, da fam√≠lia Alvarenga. Com destaque para Moema Gon√ßalves Alvarenga, engenheira e pesquisadora na √°rea nuclear (madrinha da filha de Emma), e Beatriz Alvarenga, tamb√©m engenheira e professora em√©rita da UFMG, autora de importantes livros did√°ticos sobre f√≠sica.[9] Assim, cercada, na sua vida pessoal, de mulheres dedicadas √† ci√™ncia, Emma ocupou com confian√ßa seu lugar no CPBH, em um ambiente dominado por homens.

EmmaKaucher

Emma Kaucher, a √ļnica mulher na imagem, juntamente com colega de trabalho no CPBH, 1959. Acervo particular de Andreia Kaucher Darmstadter.

 

 

Por√©m, a realidade de uma mulher casada e com filhos pequenos, que trabalhava fora de casa em plena d√©cada de 1960, impactou a trajet√≥ria profissional de Emma. Entre 1967 e 1977, pressionada principalmente pela m√£e, a pesquisadora afastou-se do servi√ßo, requerendo licen√ßa sem remunera√ß√£o, para dedicar-se aos cuidados da fam√≠lia. Segundo Andreia Darmstadter, esse acontecimento, que interrompeu a carreira da farmac√™utica por 10 anos, marcou fortemente sua vida, ‚ÄúEla adorava o trabalho e a turma […]. Ela cede √†s press√Ķes familiares e vai se ressentir sempre por sua op√ß√£o‚ÄĚ. Saudosa do ambiente de trabalho, mesmo afastada, Emma visitava regularmente o Centro, participando dos eventos comemorativos.[10]

Em casa, Emma procurou desenvolver nos dois filhos o gosto pela ci√™ncia. O filho do casal formou-se em medicina, e a filha, Andreia, estimulada pelo exemplo da m√£e, graduou-se em engenharia de agrimensura, integrando, hoje, aqueles 26% de mulheres que atuam profissionalmente no campo das STEM. ‚ÄúComo minha m√£e trabalhava em um laborat√≥rio, tivemos contato com essa realidade das a√ß√Ķes e rea√ß√Ķes qu√≠micas. Ela sempre nos estimulou, inclusive, montando um pequeno laborat√≥rio dom√©stico, fato que contribuiu para entendimentos futuros na atua√ß√£o profissional. […] [eu] adorava fazer o famoso ‚Äúsangue do diabo‚ÄĚ […] f√≥rmula que aprendi no Instituto. Meu irm√£o e eu brinc√°vamos que nossa casa era o museu de hist√≥ria natural de ‚ÄėDona Elfrida‚Äô‚ÄĚ.[11]

Com o fim de sua licença, Emma tentou voltar ao trabalho, mas foi colocada em disponibilidade, não conseguindo retomar a carreira, apesar do seu desejo e do empenho dos colegas em ajudá-la no retorno ao serviço. Frustrada, decidiu pela aposentadoria em 1981.[12]

A trajet√≥ria de Emma K. Darmstadter √© muito representativa das potencialidades e dificuldades hist√≥ricas das mulheres pesquisadoras. Ela conseguiu vencer dois gargalos estruturais em plena d√©cada de 1950, formou-se em farm√°cia e conseguiu emprego na √°rea. Desenvolveu pesquisas e construiu carreira na ci√™ncia, mas teve sua vida profissional limitada por press√Ķes culturais que a levaram a interromper o trabalho para dedicar-se integralmente √† vida dom√©stica. Anos mais tarde, sofreu novo rev√©s, quando quis voltar ao servi√ßo e n√£o conseguiu, situa√ß√£o experimentada, ainda hoje, por muitas mulheres que, ap√≥s anos afastadas do emprego para cuidar da fam√≠lia, enfrentam obst√°culos para reintegra√ß√£o no mercado de trabalho.[13]

Para Emma Kaucher, falecida em mar√ßo de 2022, o CPqRR era local de trabalho e de sociabilidade, ambiente de troca intelectual, permeado por v√≠nculos de amizade. Emma Darmstadter era entusiasta da ci√™ncia, uma das poucas mulheres pesquisadoras no Centro na d√©cada de 1960, participou de importantes investiga√ß√Ķes e merece ter sua trajet√≥ria reconhecida.

 

 

Projeto Mem√≥ria. Trajet√≥ria hist√≥rica e cient√≠fica do Instituto Ren√© Rachou ‚Äď Fiocruz Minas.

Coordenador: Dr. Roberto Sena Rocha.

Texto de: Natascha Stefania Carvalho De Ostos ‚Äď Doutora em Historiadora

 

A Fiocruz Minas agradece a Andreia Kaucher Darmstadter pela sua generosa colaboração com o Projeto Memória.

 

[1] ABC. ABC na construção da igualdade de gênero. Disponível em: <https://www.abc.org.br/2022/02/11/dia-internacional-das-mulheres-e-meninas-na-ciencia-expoe-abismo-da-desigualdade-de-genero/>.

[2] DARMSTADTER, Andreia Kaucher. Depoimento sobre Emma Elfriede Kaucher Darmstadter, 2022. [Entrevista escrita concedida a Natascha Stefania Carvalho De Ostos]. Belo Horizonte, 26 fev. 2022, 5 p..

[3] CPqRR. Emma Elfriede Kaucher Darmstadter. Documento interno Fiocruz Minas. Caixa n. 020.5/5.

[4] CPqRR. Emma Elfriede Kaucher Darmstadter. Mapa de tempo de serviço, 22 nov. 1966. Documento interno Fiocruz Minas. Caixa n. 020.5/5.

[5] Cópia da carteira de sócia de Emma E. K. Darmstadter. Acervo particular de Andreia Darmstadter.

[6] INERu. CPBH. PARAENSE, Wladimir Lobato. Atestado, 21 set. 1963. Documento interno Fiocruz Minas; INERu. CPBH. PARAENSE, Wladimir Lobato. Documento interno Fiocruz Minas, 01 abr. 1963. Caixa n. 020.5/5.

[7] PAULINI, E; PEREIRA, J. P.; DARMSTADTER, E. E. K. Estudo do sal antimal√°rico ‚Äď I. Observa√ß√Ķes sobre a estabilidade durante o armazenamento sob condi√ß√Ķes √ļmidas. Rev. Bras. Malariol. e D. Trop., n. 14, 1962, p. 133-143.

[8] DARMSTADTER, Andreia Kaucher. Depoimento. Ibidem.

[9] Idem; CNPq. Pioneiras da ci√™ncia no Brasil ‚Äď 7¬™ edi√ß√£o. Beatriz Alvarenga. Dispon√≠vel em: <https://www.gov.br/cnpq/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas/mulher-e-ciencia/pioneiras-da-ciencia-1/pioneiras-7a-edicao>.

[10] Idem.

[11] Idem.

[12] Idem; BRASIL. Diário Oficial da União, seção 2, 6 mar. 1981, p. 1.826.

[13] EBC. ALBUQUERQUE, Beatriz. Mulheres enfrentam desafios para voltar ao mercado após maternidade, 7 maio 2021. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2021-04/mulheres-enfrentam-desafios-para-voltar-ao-mercado-apos-maternidade>.