Raimundo Siebra de Brito

 

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Raimundo Siebra de Brito. Acervo: Fiocruz Minas, s.d.

Raimundo Siebra de Brito nasceu em 1909, na cidade de Crato, Ceará. Formou-se em medicina, pela Faculdade de Medicina da Universidade da Bahia, no ano de 1937.[1] Ao longo de sua carreira destacou-se pela atuação no combate à peste no Brasil.

A peste tem como agente causador o micróbio Yersinia pestis, que pode manifestar-se clinicamente na forma da peste bubônica, sendo a maneira mais comum de infecção a picada de pulga contaminada, normalmente encontrada em ratos.[2] A peste bubônica, conhecida como peste negra, talvez seja a doença que mais povoou o imaginário social, despertando ansiedade e terror. Em meados do século XIV a enfermidade atingiu a Europa, causando uma devastação populacional nunca vista. Boccaccio, literato da região da Toscana (hoje Itália), em sua obra Decameron, assim descreveu a situação provocada pela doença: “Não sendo bastante o solo sagrado para sepultar a grande quantidade de corpos que chegavam carregados às igrejas a cada dia […] abriam-se […] enormes valas nas quais os corpos que chegavam eram postos às centenas: eram eles empilhados em camadas, tal como a mercadoria na estiva dos navios, e cada camada era coberta com pouca terra até que a vala se enchesse até a borda”.[3] As teorias médicas do período atribuíam as epidemias a miasmas, espécie de vapor pútrido que contaminava o ar e provocava enfermidades.[4]

A doença mudou a face da Europa e causou profundos impactos econômicos, demográficos e culturais. O fato é que essa ocorrência histórica se transformou em baliza a partir da qual as gerações seguintes pensaram as epidemias. A peste propagou-se em diversos períodos e chegou ao Brasil, desencadeando problemas sanitários em décadas relativamente recentes, sendo combatida por sanitaristas como Raimundo Siebra.

O médico entrou para o serviço público em 1941, como auxiliar de pesquisas do recém-criado Serviço Nacional de Peste, logo promovido a chefe do Setor de Crato.[5] Ele foi galgando posições dentro do órgão, especializando-se sobre a peste em cursos ofertados pelo Departamento Nacional de Saúde e pelo Instituto Oswaldo Cruz, em 1944. Já em 1945 passa a dirigir o Serviço de Peste da cidade de Santos, São Paulo. Ainda nesse estado, comandou a Brigada Epidemiológica e o laboratório da Circunscrição paulista, tendo supervisionado experimentos de vacina antipestosa.[6] Minas Gerais foi um dos estados a figurar no mapa da peste, com focos naturais na Serra do Espinhaço, e casos oficialmente levantados desde 1942, sendo a área mais acometida o norte do estado.[7]

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“Municípios onde ocorreram casos positivos de peste humana no Estado de Minas Gerais – 1966/1970”. In: Ministério da Saúde. Campanha contra a Peste. Manual. Rio de Janeiro, 1973, s./p.

No ano 1950, Siebra de Brito foi transferido para Belo Horizonte, nomeado diretor regional do Serviço Nacional de Peste de Minas Gerais, setor destinado a combater casos da doença que surgiam no centro e norte do estado, principalmente nas proximidades da cidade de Montes Claros.[8] Em suas memórias, o médico narrou as dificuldades enfrentadas no combate à peste, tendo em vista que algumas das medidas recomendadas à época eram repudiadas pela população. Como a de desmatar a área ao redor das casas, incluindo árvores frutíferas (com o intuito de afastar os ratos), o que causava descontentamento nos moradores.[9] Nos casos de falecimento com suspeita da doença, era preciso exumar cadáveres para realizar exames e confirmar diagnóstico, impactando fortemente os familiares da vítima.

Em 1956, com a criação do Departamento Nacional de Endemias Rurais (DNERu), Raimundo Siebra passou a atuar como assistente em campanhas contra a peste, tracoma e leishmaniose da Circunscrição mineira do órgão. O Centro de Pesquisas de Belo Horizonte (CPBH), pertencente ao Instituto Nacional de Endemias Rurais (INERu), órgão de pesquisa do DNERu, prestava apoio a iniciativas públicas de estudo da doença. Já em 1956 a Instituição ofertava Curso de Endemias Rurais, destinado a profissionais da saúde, com professores do Centro e de outras unidades. A temática da peste figurava entre os tópicos ofertados, de responsabilidade dos médicos Zamir de Oliveira e Raimundo Siebra.[10]

Como um dos sanitaristas mais atuantes no combate à peste no Brasil, ele foi relator do grupo de estudo de Combate Contra a Peste, do Ministério da Saúde, no início da década de 1960.[11] Os estudiosos sugeriram a divisão da área endêmica nacional. Uma delas seria formada pelo Nordeste, e a outra abrangeria Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro, com a recomendação de que o CPBH atuasse como ponto de apoio dessa área.[12] O Centro também colaborou com o Plano Piloto de Peste, em Pernambuco, enviando profissional para atuar temporariamente nos trabalhos, como a laboratorista Rosa Maria Brígido.[13]

Entre 1958 e 1962, Raimundo Siebra foi diretor da Circunscrição de Minas Gerais do DNERu.[14] Logo depois atuou como representante do Departamento Nacional de Saúde na Comissão Estadual de Entorpecentes, voltando à direção do DNERu-MG em 1964.[15]

No ano de 1969, o sanitarista foi chamado a assumir temporariamente a direção do Centro de Pesquisas René Rachou (CPqRR). Siebra acabou ficando por mais de um ano à frente do Centro, até 1970, acumulando o cargo com a chefia da Circunscrição regional.[16] O médico já tinha amplo contato com os pesquisadores da Instituição; de sua experiência na direção do Centro, escreveu: “Fizemos no decorrer de minha administração várias reuniões e seminários com técnicos e cientistas nacionais e estrangeiros. Debatemos o tema das grandes endemias sob vários aspectos. A contribuição do pessoal do Centro foi sempre exaltada”.[17]

No ano de 1970, com a criação da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM), que absorveu parte da estrutura do DNERu, Siebra de Brito passou a ser chefe da Coordenação Regional VI, abrangendo Minas Gerais e São Paulo.[18] Por sua destacada atuação como sanitarista representou o Brasil em congressos da Organização Mundial da Saúde, “na Itália, Marrocos, Espanha, Rússia e Estados Unidos”.[19]

O médico escreveu um livro de memórias, narrando sua trajetória e atuação profissional, intitulado Caçando ratos e matando mosquitos. Impressões de um sanitarista. Na obra, Raimundo Siebra narra suas experiências no combate e profilaxia de doenças endêmicas, enfatizando os muitos trabalhos que desenvolveu em Minas Gerais. Um exemplo foram as ações contra a malária que, segundo o autor, abrangiam uma vasta região: “Mantínhamos um trabalho de ataque permanente em toda área endêmica que era representada pelos grandes vales do São Francisco, do Rio Doce, Jequitinhonha, Mucuri e Grande”.[20]

Siebra de Brito era orgulhoso de sua origem cearense, tendo sido Presidente do Centro Cearense de Minas Gerais.[21] Pelo fato de ter trabalhado durante muitos anos em benefício da população mineira, foi agraciado, em 1974, com o título de Cidadão Mineiro.[22] Em cerimônia de entrega da honraria, na Assembleia Legislativa, o médico recordou como percorreu “este Estado de ponta a ponta. […] Procurei levar alívio onde existia dor, embora meu objetivo fosse evitar a angústia pela prevenção da doença”.[23] Falecido em 1980,[24] Raimundo Siebra de Brito foi importante sanitarista, com destacada atuação no combate e prevenção de endemias no estado de Minas Gerais.

 

Projeto Memória. Trajetória histórica e científica do Instituto René Rachou – Fiocruz Minas.

Coordenador: Dr. Roberto Sena Rocha.

Texto da historiadora: Natascha Stefania Carvalho De Ostos.

 

 

[1] LEAL, Vinicius Antonius Holanda de Barros. História da medicina no Ceará. Fortaleza: INESP, 2019, p. 219.

[2] FIOCRUZ. Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães. ALMEIDA, Alzira de, et. al.. Peste. Serviço de referência, 2002, págs. 3-4, 11. Disponível em: <http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/manuais/epidemiologia/manual_peste.pdf>.

[3] BOCCACCIO, Giovanni. Decameron. Porto Alegre: LP&M editores, 2013, posição 21.

[4] BENEDICTOWN, Ole J.. La Peste Negra (1346-1353) – la historia completa. Madrid: Ediciones Akal, 2011, p. 18.

[5] COSTA, Haroldo Lopes da. In: BRITO, Raimundo Siebra de. Cidadão Mineiro. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1976, p. 17.

[6] Idem, p. 17-18; A Cruz, Rio de Janeiro, n. 16, 16 abr. 1944, p. 2.

[7] MINISTÉRIO DA SAÚDE. Campanha contra a Peste. Manual (instruções para auxiliares em epidemiologia da peste). Rio de Janeiro, 1973, s./p., p. 26. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/campanha_contra_peste_manual.pdf.>.

[8] BENCHIMOL, Jaime Larry; JUNIOR, Denis Guedes Jogas. Uma História das Leishmanioses no Novo Mundo (fins do século XIX aos anos 1960). Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; Belo Horizonte: Fino Traço, 2020, p. 583; Defesa contra a peste bubônica em Minas Gerais. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, n. 17.432, 12 jan. 1950, p. 3; COSTA, Haroldo Lopes da. Ibidem, p. 18.

[9] BRITO, Raimundo Siebra de. Caçando ratos e matando mosquitos. Impressões de um sanitarista. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1986, p. 62-63.

[10] BRASIL. Diário Oficial da União, seção I, 01 out. 1956, p. 18.627.

[11] MINISTÉRIO DA SAÚDE. Campanha contra a Peste. In: Combate a Endemias Rurais no Brasil. (Relatórios dos Grupos de Trabalho reunidos em 1960 na cidade do Rio de Janeiro). Departamento Nacional de Endemias Rurais, DNERu. Guanabara, 1962, p. 141.

[12] MINISTÉRIO DA SAÚDE. Campanha contra a Peste. Idem, p. 145.

[13] TAVARES, Celso. Análise do contexto, estrutura e processos que caracterizaram o Plano Piloto de Peste em Exu e sua contribuição ao controle da peste no Brasil. Tese (Doutorado em Saúde Pública) – Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, Fundação Oswaldo Cruz. Recife, 2007, p. 82.

[14] COSTA, Sylo. In: BRITO, Raimundo Siebra de. Cidadão Mineiro. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1976, p. 9.

[15] COSTA, Haroldo Lopes da. Ibidem, p. 18.

[16] BENCHIMOL, Jaime Larry; JUNIOR, Denis Guedes Jogas. Ibidem, p. 584.

[17] BRITO, Raimundo Siebra de. Caçando ratos e matando mosquitos. Ibidem, p. 102.

[18] COSTA, Haroldo Lopes da. Ibidem, p. 18; Correio da Manhã, Rio de Janeiro, n. 23.910, 27 mar. 1971, p. 15.

[19] Falecimentos. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, n. 51, 29 maio 1980, p. 24.

[20] BRITO, Raimundo Siebra de. Caçando ratos e matando mosquitos. Ibidem, p. 97.

[21] O Jornal, Rio de Janeiro, n. 10.664, 15 jun. 1955, p. 7.

[22] Lei Nº 6.367, de 05 jul. 1974. Concede o título de cidadão honorário do Estado de Minas Gerais a Raimundo Siebra de Brito. Disponível em: <https://leisestaduais.com.br/mg/lei-ordinaria-n-6367-1974-minas-gerais-concede-o-titulo-de-cidadao-honorario-do-estado-de-minas-gerais-a-raimundo-siebra-de-brito?r=c>.

[23] BRITO, Raimundo Siebra de. Cidadão Mineiro. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1976, p. 26.

[24] Falecimentos. Jornal do Brasil, Ibidem, p. 24.